"Não é bom para a Alemanha, não é bom para o Brasil"

Graça Magalhães-Ruether - O Globo

BERLIM. A deputada alemã do Partido Verde diz que a decisão do governo de Berlim de fechar as usinas atômicas pode ter efeito também na exportação de tecnologia e de equipamento nuclear para o Brasil. Sylvia Kotting-Uhl prevê um longo debate parlamentar na Alemanha, em junho, sobre a politica de exportação. "A consequência poderá ser a suspensão da garantia estatal Hermes para um crédito de exportação" ( 1,4 bilhão), disse. Sem a garantia do governo alemão, o negócio deve se tornar menos atraente para a francesa Areva-Siemens (antiga Siemens-KWU), que constrói Angra 3.
 

A senhora apresentou recentemente, no Parlamento, uma moção contra o plano do governo alemão de oferecer o seguro estatal Hermes para créditos de exportação nuclear para o Brasil. A garantia estatal foi suspensa?

SYLVIA KOTTING-UHL: Não. A minha moção foi recusada. Mas isso foi pouco antes de Fukushima. Depois disso, houve uma guinada de 360 graus na politica nuclear do governo (de Angela Merkel), que culminou com a decisão de fechar todas as usinas do país. Uma série de mudanças na politica nuclear acompanhará essa mudança. Teremos um longo debate no Parlamento em junho. De antemão, já antecipo que o governo alemão vai ter que cancelar a garantia de crédito de exportação nuclear para Angra 3, de 1,4 bilhão porque não vai ter meios de manter a sua credibilidade fomentando uma tecnologia de alto risco em uma região de risco que é Angra. O que não é bom para a Alemanha não pode ser bom também para o Brasil.

 
Mas o governo alemão pode apenas suspender o seguro de crédito, porque a exportação propriamente dita é feita pela empresa Siemens-Areva...

 
SYLVIA KOTTING-UHL: É isso mesmo. Se a empresa vai continuar ou não com o projeto no Brasil vai depender dos seus interesses econômicos. A suspensão do seguro vai com certeza dificultar o negócio. O projeto de Angra 2 foi interessante para a Siemens (o consórcio com a Areva ocorreu em 2005) porque o crédito foi garantido pelo governo alemão.

 
A Siemens, antigamente a maior produtora de centrais nucleares da Europa, acaba de anunciar seu plano de retirada do consórcio nuclear. O negócio da tecnologia nuclear não tem futuro na Alemanha?

 
SYLVIA KOTTING-UHL: Sim. Já quando os verdes fizeram parte do governo federal alemão (de 1998 a 2005) tomamos a decisão de fechar as usinas. Depois, quando Merkel assumiu, resolveu prolongar o tempo de funcionamento das centrais, uma forma de aumentar a sua rentabilidade e agradar ao lobby atômico. Mas a nossa decisão de não construir novas usinas ela não mudou. Sem um mercado interno, as empresas começaram a ter problemas. A exportação é uma saída, mas a competição aí é enorme.


A senhora espera que a decisão pioneira da Alemanha influencie outros países a fazer o mesmo?

 SYLVIA KOTTING-UHL: Espero que sim. Mas se vamos ser um exemplo a ser seguido, vai depender de como vamos conseguir desenvolver a energia renovável. Os planos do governo são de um aumento das fontes renováveis (sobretudo energia solar e eólica) de 17% para 35%. Devemos mostrar aos outros países que a nossa indústria não sofre com a renúncia à energia atômica, mas, pelo contrário, ela vai é lucrar com o desenvolvimento de novas tecnologias. A catástrofe de Fukushima mostrou que o risco é grande em qualquer país do mundo.
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