Calor de até 44ºC ameaça plantações de milho em diversos Estados norte-americanos

The New York Times

Monica Davey
Em Hartford City (EUA)

Em grande parte das fazendas do centro-oeste norte-americano, as altas temperaturas aliadas à falta de chuva estão ameaçando o que deveria ser a maior colheita de milho do país em gerações.


Alguns agricultores em Illinois e Missouri já desistiram dos campos ressecados e atrofiados, e os reviraram. Especialistas dizem que partes de cinco Estados que plantam milho, inclusive Indiana, Kentucky e Ohio, estão apresentando condições de seca severa ou extrema. E ao menos em nove Estados quase a metade dos campos de milho foram considerados fracos ou muito fracos na última semana, segundo autoridades federais, em uma mudança notável das altas expectativas de um mês atrás.

Agentes de segurança da safra e economistas especializados em agricultura estão acompanhando a situação de perto. Alguns fazem comparações com a seca devastadora de 1988, quando os campos de milho encolheram significativamente. Alguns produtores, infelizes, começaram a fazer alusões ao "dust bowl", ou a tempestade de areia dos anos 30. Muito mais estará em jogo nos próximos dias: com a fase breve e delicada de polinização iminente em muitos Estados, quilômetros e quilômetros de milho vão prosperar ou morrer, dependendo das condições de precipitação e temperatura.

"Tudo mudou rapidamente, do ideal para o trágico", disse Don Duvall, produtor de Illinois que já viu dois de seus campos de milho secarem e perecerem enquanto outros ainda estão em um ponto incerto, após um mês de junho quase sem chuva.

"A cada dia que passa, mais milho é abandonado", diz Duvall. "Mesmo que comece a chover agora, não teremos a colheita incrível que todos falavam".

Para os produtores, especialmente os que não têm seguro, a pressão cresce toda manhã, quando veem as previsões, e a cada caminhada sufocante pelos campos torrando sob o sol. As preocupações se espalharam rapidamente: o preço do milho subiu no Conselho de Comércio de Chicago nos últimos dias por causa da probabilidade de uma colheita menor, e os analistas estão avaliando a perspectiva de pressão sobre os preços de alimentos e da produção de etanol.

"Você acorda toda manhã com aquele aperto no estômago", disse Eric Aulbach, agricultor no centro de Indiana, olhando pelos campos de milho que não deveria estar mais conseguindo ver nesta altura.

As plantas estão baixas, as folhas murchas, com uma cor pálida amarela saindo do caule. Na mesma estrada, o milharal de outro produtor está ainda mais atrofiado.

Alguns especialistas estão menos pessimistas, dizendo que só se saberá o destino final do milho do país, o maior produtor do mundo, no final do verão, após a polinização, quando vai ser possível ver se há espigas e se são suficientes. Eles observam que as condições climáticas quentes e secas não atingiram alguns Estados importantes para o milho, como Minnesota, Dakota do Norte, do Sul e a região Oeste de Iowa, o maior produtor de milho do país.

Nesses Estados, a safra parece saudável e forte – sem mencionar que é cada vez mais valiosa. Em grande parte do país, o milho não é protegido pela irrigação, mas Nebraska e Kansas, especialmente, irrigam seus milharais. Mesmo assim, essas áreas também sentiram os efeitos da seca, exigindo mais água, o que potencialmente aumenta os custos.

"A questão do preço é sempre móvel", diz Darrel L. Good, professor emérito de economia agrícola e do consumidor na Universidade de Illinois em Urbana-Champaign. "Mas o que sabemos é: já houve uma redução permanente e substantiva e, dependendo do tempo, podemos ver redução muito maior". O departamento de Agricultura informou em sua avaliação mais recente, divulgada nesta semana, que 48% do milho no país estava em boas ou excelentes condições, o que representou uma queda em relação à semana anterior, com 56%.

Em alguns Estados, porém, as circunstâncias são piores. Em Indiana, metade dos campos foi considerada fraca ou muito fraca e em Illinois, outro Estado entre os principais produtores, somente 26% do milho foi considerado bom ou excelente.

John Hawkins, porta-voz do Escritório Agrícola de Illinois, disse que o plantio mais ao Sul do Estado "está próximo do ponto sem volta", enquanto em outras partes do Estado, "há muitas preces, pois a safra está por um fio. Essa temperatura acima de 37ºC está tirando a vida de tudo".

Os produtores norte-americanos tinham altas expectativas para o milho deste ano, e plantaram 96,4 milhões de acres -5% a mais do que no ano anterior. A alta do preço e a expectativa de fortes lucros tornaram o plantio deste ano o maior em 75 anos. Os tempos no campo têm sido difíceis, com os preços das terras subindo, enquanto a recuperação foi mais lenta em outros setores. Um março anormalmente quente no Centro-oeste aumentou ainda mais as esperanças para a safra, permitindo que os produtores plantassem o milho semanas antes que de costume. Para alguns cultivos, inclusive cerejas em Michigan e maçãs em Indiana, as geadas inesperadas em abril causaram danos, mas o milho, disse Randy Anderson, agricultor no sul de Illinois, progrediu muito bem.

Aí, choveu muito pouco, e as temperaturas pularam. Na semana passada, nos campos de milho foram quebrados recordes de calor: no condado de Jefferson, Missouri, por exemplo, 44ºC; Evansville, Indiana, 42ºC. Isso deixou o milho, inclusive o de Anderson, murcho.

"Estamos falando de pés de milho de 1,5 metros sem espigas, sem brotos e pendões", disse ele. "Dá uma dor só de olhar".

Para grande parte da região, as próximas semanas –quando os pendões das plantas soltam o pólen para a fertilização- são cruciais. Os infinitos campos de soja também estão em risco em parte do centro-oeste, apesar de parecerem mais resistentes e capazes de polinizar mais tarde.

Já a planta do milho, se estiver estressada e murcha pode nem polinizar. "É uma janela muito estreita para o milho, com pouco espaço para erro", disse Brad Rippey, meteorologista agrícola do Departamento de Agricultura. "O que acontece nesse espaço de tempo é determinante –a espiga acontece ou não".

Na tarde da última quarta-feira (4), as temperaturas estavam em torno dos 37ºC em St. Louis e Indianapolis. Algumas previsões de tempo sugeriam alívio na forma de temperaturas mais baixas em parte do centro-oeste nesta semana, com alguma chuva, mas não o dilúvio que muitos dizem precisar.

"Só o que podemos fazer é torcer e esperar", disse Aulbach, pegando um punhado de terra e tentando dar forma com os dedos, mas vendo-a escorrer como pó. 


Tradutora: Deborah Weinberg
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