Poluição no norte da China prejudica cerca de 150 milhões de pessoas

Muitos chineses deixam de praticar atividade física por causa da poluição.
Brasileiros que moram lá usam filtros de ar e deixam até a janela fechada.


André Trigueiro e Franklin Feitosa | Jornal da Globo
China (em parceria com Globo Natureza)

A poluição na importante região do norte da China afeta um total estimado de 150 milhões de pessoas.

Na reportagem especial da série sobre a poluição na China, uma parceria entre o Jornal da Globo e o Globo Natureza, o repórter André Trigueiro foi ver como vivem os brasileiros que moram lá. E o que governo e escolas fazem para proteger os alunos.

Imagine viver em um lugar onde, em boa parte do tempo, não é possível enxergar a paisagem por causa da poluição. Na China é assim.

Uma mistura de fumaça e poeira atinge com intensidade cada vez maior 15% do território, principalmente na região norte do país, onde vivem mais de 150 milhões de pessoas. É onde estão as grandes cidades, como a capital Pequim.

A urbanização acelerada ajuda a concentrar ainda mais os poluentes. A população urbana cresceu mais de 40% nos últimos 10 anos. Visitamos uma família de brasileiros nos arredores de Pequim.

CUIDADOS PARA VIVER NA POLUIÇÃO

Em torno de uma mesa cheia de quitutes brasileiros, Renata reuniu os filhos e a vizinha, também brasileira, para contar que cuidados a família tem para viver na China.

“Por exemplo, a casa tem filtro de ar que a gente instala. Uma máquina que nós temos em todos os quartos”, conta uma chinesa.

“Faz muita diferença. Beijing tem cheiro. É uma mistura de fumaça de cigarro com cheiro de comida e alguma coisa que você não sabe o que é. O seu cabelo cheira poluição se você anda para a rua. Sua roupa cheira diferente”, ela explica.

ISOLADOS DA CIDADE POLUÍDA

A chinesa ainda explica porque mantém todas as janelas fechadas dentro de casa. “Aqui em Beijing ou é muito frio ou é muito calor ou é muito poluído. Então, a gente não abre a janela”.

Nesse ponto é que percebemos como se vive aqui: literalmente trancado dentro de casa.

“Já teve casos de o esporte ter sido cancelado várias vezes por causa de poluição. A gente tem que mudar tudo para fazer lá dentro porque a poluição é muito alta, fica muito difícil respirar. É ruim para a gente. Acontece [com muita freqüência]. Eu acho que nós já estamos muito acostumados com isso. Às vezes, a gente não liga muito porque não tem muito o que fazer”, diz outra moradora de Pequim.

No último inverno, eles chegaram a ficar cinco dias sem poder sair de casa. “Já teve caso de pessoas que se mudaram para Xangai por causa disso. Porque Xangai é menos poluído”, conta um deles.

XANGAI


Lá fomos nós para Xangai para checar isso. Pelas medições oficiais, há menos poluição que em Pequim. Mas a carga pesada de veículos e a queima intensiva de carvão para sustentar, por exemplo, o deslumbrante espetáculo dos monumentos e prédios iluminados à noite não deixam dúvida: o ar daqui também não é dos melhores.

Xangai é, na média, três vezes mais poluída que São Paulo. Que o digam Etevaldo e Aparecida. Eles estão na cidade há 12 anos.

Empresário bem sucedido, ele quer viver para o resto da vida na cidade chinesa, mesmo conhecendo bem essa realidade.

“Quando você sai do avião, chega a São Paulo e dá uma respirada. O ar aqui é um pouco diferente. Acredite, é muito mais elevado aqui. Só que pelo fato de você estar aqui já há muito tempo, eu acho que você vai se acostumando com o ar. Alguns clientes que chegam no aeroporto, e chegam no centro de Xangai, dizem que o ar aqui é meio carregado. Já ouvi isso de algumas pessoas e para mim está normal”.

DOENÇAS RESPIRATÓRIAS

Em toda a China, estima-se que 42 milhões de pessoas tenham doenças respiratórias agravadas pela poluição. É quase a população do estado de São Paulo. O próprio governo já admitiu que a poluição do ar causa até 500 mil mortes prematuras por ano no país.

Médico há 40 anos e diretor do primeiro centro criado na China para tratar desse tipo de doença, Dr. Bai conta que somente no centro da cidade foram registrados no ano passado mais de 5 mil casos de câncer de pulmão provocados ou agravados pela poluição.

E o doutor Bai revela ainda: “No meu hospital, o paciente mais jovem com câncer de pulmão que nós já diagnosticamos tinha apenas 14 anos. Mas eu fui informado que, em outro hospital, havia outros com apenas três ou sete anos de idade”.

COMO SE PROTEGER?

Proteger as crianças dos efeitos da poluição virou política de governo na China. Os diretores de escolas são orientados a manter os alunos em ambientes fechados se os indicadores de poluição forem altos.

Para crianças abaixo de cinco anos o limite é de 200 microgramas por metro cúbico; acima de cinco anos, 250; crianças com problemas respiratórios não podem sair ao ar livre a partir de 150 microgramas por metro cúbico. E se passar de 300 microgramas por metro cúbico por três dias seguidos, a ordem é suspender as aulas.

É o que acontece em uma escola internacional com 1.100 alunos, sendo 17 deles brasileiros, perto de Pequim.

O diretor checa de hora em hora a qualidade do ar em três diferentes aplicativos. "A cada duas horas, enviamos para todos os professores um e-mail que nos lembra o que precisamos fazer".

Às 13h, horário de Beijing, hora do recreio, era para os alunos estarem do lado de fora brincando, mas a qualidade do ar não está boa. Por isso, a orientação dada pela direção para os professores é de que eles estimulem atividades improvisadamente dentro de sala de aula para que os alunos passem o tempo do lado de dentro, pois a qualidade do ar é melhor.

Mas os alunos bem que preferiam estar em outro lugar. A pequena Wendy diz que preferia estar lá fora para brincar. E a brasileirinha Elisa entrega: “Todo mundo fica muito triste e todo mundo reclama”.

SISTEMAS DE PURIFICAÇÃO DO AR

A escola, que tem sistemas de purificação do ar do lado de dentro, agora tem projeto para o lado de fora.

No ano passado, as atividades ao ar livre na escola foram suspensas por 12 dias por causa da poluição do ar. Para evitar longos períodos de confinamento nas salas e nos corredores, a escola decidiu criar uma proteção especial sobre duas quadras esportivas. Serão mais 1250 metros quadrados de área segura com ar limpo.

A redoma vai custar mais de R$ 1,5 milhão e fica pronta nas próximas semanas. "A cúpula será aquecida no inverno e climatizada no verão, mas totalmente purificada e segura para que a poluição não entre. E, no próximo verão, em 2015, nós construiremos outro ginásio interno. Nós temos que continuar melhorando porque você nunca sabe como será o futuro nesta cidade”, explica o responsável da escola.

Refugiar-se da poluição em ambientes fechados não é uma opção para o futuro. Hoje, nenhum outro país do mundo investe tanto em tecnologias limpas e mais sustentáveis quanto a China.


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