Diante de crise no Sudeste, ministra pede que população economize água e energia elétrica

Izabella Teixeira descreveu a situação da região como 'sensível' e 'complexa' e pediu a colaboração de todos


Glauce Cavalcanti, Luiza Damé e Luiz Ernesto Magalhães | O Globo

BRASÍLIA e RIO — Em meio à crise hídrica, que atinge os estados do Rio de Janeiro, de São Paulo e de Minas Gerais, e de fornecimento de energia no país, o governo federal fez, nesta sexta-feira, um apelo para que a população economize. Os problemas com água e energia levaram seis ministros a se reunirem no Palácio do Planalto para discutir o cenário. Ao fim do encontro, a ministra do Meio Ambiente, Izabella Teixeira, classificou a situação de “sensível e preocupante". No Rio de Janeiro, onde o principal reservatório do Rio Paraíba do Sul já atingiu o volume morto, o governador Luiz Fernando Pezão também pediu à população para evitar o desperdício de água.



A ministra do Meio Ambiente, Izabella Teixeira: 'precisamos da colaboração de todos' - André Coelho / Agência O Globo

Izabella Teixeira lembrou que o nível de chuvas no Sudeste, no ano passado, foi o pior da série histórica, iniciada em 1930. E que, nestes primeiros dias de 2015, o nível está abaixo do de 2014.

— Temos um problema sensível, complexo, e precisamos da colaboração de todos. Todos têm de saber poupar água, poupar energia. É uma situação atípica. Nunca se viu no Sudeste brasileiro uma situação tão sensível e tão preocupante — afirmou a ministra, acrescentando que deverá ser feita uma campanha para orientar a população sobre o uso racional da água.

A ministra lembrou que a previsão é de chuva nos próximos dez dias no Sudeste, mas sem indicações de onde ela ocorrerá e do potencial das precipitações. Segundo Izabella, o Palácio do Planalto dará apoio técnico e financeiro para a realização de obras necessárias para garantir o fornecimento de água à população.

RACIONAMENTO PODE CHEGAR A INDÚSTRIAS

Nesta sexta-feira, a situação das represas que atendem ao Estado do Rio voltou a piorar. Em 24 horas, o nível do Jaguari caiu de 2% para 1,93%. Em Santa Branca, oscilou de 0,65% para 0,41%, enquanto que no Funil, de 4,15% para 3,89%. Por sua vez, o Paraibuna já opera no volume morto. Pezão afirmou que o Rio vive uma situação sem precedentes. Por isso, pediu a colaboração da população:

— Nunca o estado viveu um momento como este. A população precisa ajudar. Já começamos uma campanha de orientação para que as pessoas economizem água.

Pezão acredita que a população responderá positivamente aos apelos, como aconteceu na década passada quando houve racionamento de energia.

O pedido do governador, porém, ocorre em um momento no qual a economia fluminense começa a ser atingida pela estiagem. No Rio, a seca matou duas mil cabeças de gado em quatro meses. A Secretaria estadual de Agricultura e Abastecimento estima em R$ 10 milhões até agora os prejuízos de 13 mil pequenos agricultores das regiões Norte e Noroeste Fluminense, além das cidades de São Sebastião do Alto, Cantagalo e Trajano de Moraes, na Região Serrana. O governo anunciou ainda que na segunda-feira vai liberar R$ 30 milhões de um plano de contingência para auxiliar esses agricultores. Os recursos, oriundos do Banco Mundial, serão aplicados em ações como a perfuração de poços artesianos, para a água do gado e a irrigação das lavouras.

Outros setores também enfrentam dificuldades. Quase um terço (30,6%) das empresas fluminenses reconhecem sofrer efeitos da escassez. Destas, metade já registra aumento no custo de produção. Os dados estão em pesquisa realizada pela Firjan em novembro de 2014, para mapear os efeitos da crise hídrica na economia do estado. Como a situação dos reservatórios piorou, o atual retrato pode ser mais grave, alerta Luís Augusto Azevedo, gerente geral de Meio Ambiente da Firjan.

E esse cenário pode ficar ainda pior. O secretário estadual do ambiente, André Corrêa, admitiu, nesta sexta-feira, que empresas instaladas ao longo do canal de São Francisco, na foz do Guandu, podem ser obrigadas a racionar água para preservar o consumo humano, se a seca perdurar por mais seis meses. Na região, estão instaladas cerca de 140 empresas, muitas de grande porte, como o Grupo Gerdau, a Thyssen-Krupp Companhia Siderúrgica do Altântico (CSA), Furnas e a Fábrica Carioca de Catalisadores (FCC).

Essas empresas já enfrentam problemas hoje. A FCC vem reduzindo a captação de água com interrupções diárias de cerca de quatro horas de duração, explica Abílio Faia, coordenador de Segurança e Meio Ambiente da empresa. É que, com a baixa vazão, a água do mar, que chega na montante do rio, vem em maior quantidade. Se não for possível puxar água do canal de São Francisco, a FCC poderá recorrer ao sistema da Cedae, ao qual está conectada. Mas, segundo Abílio, o custo seria 25 vezes maior que o da captação direta. Além disso, as despesas da produção aumentariam em 11% .

CSA DESLOCA PONTO DE CAPTAÇÃO

A CSA, por sua vez, decidiu deslocar o atual ponto de captação três quilômetros acima do atual. Com a crise hídrica, já reduziu em 20% a captação de águas no canal do São Francisco, e passou a desligar as bombas quando há aumento de salinidade.

Em entrevista ao “Bom Dia Rio”, da TV Globo, Corrêa chegou a anunciar a criação de um plano de contingência para enfrentar a falta de água, que poderia incluir um aumento de tarifas para os consumidores que gastassem mais. Horas depois, o governador Pezão, porém, afirmou o contrário: o Rio não deve enfrentar racionamento e a Cedae já sinalizou não haver necessidade de aumentar tarifas. Corrêa, então, convocou uma entrevista coletiva e mudou o tom.

— Hoje, no Rio não tem nenhum tipo de racionamento. No horizonte de seis meses, pode acontecer. Mas, como a prioridade é o abastecimento humano, se tivermos alguma dificuldade, o que não esperamos que aconteça, as empresas localizadas no final do Guandu poderão, sim, ter problemas de operação — admitiu o secretário.

Para tentar minimizar o impacto na indústria, o secretário do Ambiente disse que pretende se reunir semana que vem com diretores das companhias. Ele vai propor que as empresas reaproveitem água de reúso da Cedae, descartada de estações de tratamento e do próprio processo de produção de água potável do Guandu.

FIESP ESTÁ MAPEANDO SUBSOLO DE SÃO PAULO

A Federação das Indústrias de São Paulo (Fiesp) está mapeando o subsolo paulista para identificar os locais onde há potencial de uso de águas subterrâneas. A ideia é sugerir às indústrias a perfuração de poços artesianos, evitando a dependência total da rede da Sabesp e a consequente exposição a crises hídricas como a atual.

O estudo deve ficar pronto em dois meses. Nas primeiras fases de pesquisa, a Fiesp já constatou que a vazão do subsolo é de dez metros cúbicos por segundo. No Sistema Cantareira, que abastece a região metropolitana da capital, a vazão hoje é de 12 metros cúbicos por segundo.

— Poço artesiano é uma alternativa coerente para a atual crise. Ele serve muito bem como fonte complementar de abastecimento. O que não dá é ficar sem água — disse Nelson Pereira dos Reis, diretor de Meio Ambiente da Fiesp.

Com o objetivo de reduzir os custos, a entidade também quer sugerir a instalação dos poços em consórcios de indústrias, o que também diminuiria o processo burocrático para conseguir autorização para fazer a perfuração.

— Agora é preciso pensar no médio e longo prazos e ter consciência de que o uso da água deve ser racional. E fazer conglomerados de indústrias com um único poço é muito recomendável — afirmou Reis.

*Colaboraram Célia Costa, Dayana Resende, Renan Almeida e Roberta Scrivano


Postar um comentário

Postagens mais visitadas