Desastre nuclear de Fukushima põe em questão segurança de Usina de Angra

O acidente nuclear em Fukushima, no Japão, completa 4 anos e ainda há riscos na cidade e arredores, segundo a Autoridade de Regulação Nuclear do Japão.


Geórgia Cristhine | Sputnik

Um terremoto de magnitude 9, no dia 11 de março de 2011, seguido de um tsunami, devastou o Nordeste do Japão, deixando mais de 18 mil mortos e desaparecidos, além de desencadear uma grave crise nuclear.

Usina nuclear da Angra dos Reis
© AP Photo/ Felipe Dana
Para o engenheiro e pesquisador sênior da Coordenação dos Programas de Pós-Graduação em Engenharia da Universidade Federal do Rio de Janeiro (Coppe/UFRJ), o Dr. Moacyr Duarte, a grande questão que ficou após o acidente em Fukushima foi se uma empresa privada tem capacidade para gerenciar uma central nuclear, pois o que levou a região ao colapso foram serviços de manutenção recomendados mas não realizados.

“O problema que aconteceu em Fukushima estava incluído em recomendações e modificações, que a empresa tinha que fazer, como a medida de enclausurar os tanques de combustível para os geradores de emergência. Porém, a empresa não fez, e foi o motivo pelo qual a central acabou perdendo todos os seus reatores em sequência, como nós assistimos.”

Dr. Moacyr Duarte analisa que, do ponto de vista governamental, existe um plano muito sério no Japão no que diz respeito à prevenção de tsunamis e terremotos, mas no caso específico do desastre de Fukushima, além do fenômeno natural, houve ainda um outro, tecnológico, já que a empresa proprietária da usina, para não perder dinheiro, não fez as modificações necessárias para manter o nível de segurança devido.

O engenheiro faz ainda uma comparação do sistema de Fukushima com a Usina de Angra, localizada à margem da rodovia BR-101, na praia de Itaorna, em Angra dos Reis, no Estado do Rio de Janeiro. Segundo o pesquisador, por causa de uma demanda de segurança da Agência Internacional de Energia Atômica, a Usina de Angra1 ficou paralisada para a troca de um gerador de vapor do reator. 

“A troca do equipamento, sem dúvida, tirou uma parte do que seria o lucro da empresa Eletronuclear, porém a mudança era uma solicitação da Agência Internacional, e ela foi executada. Se imaginássemos, no âmbito primário, o simples anúncio de não pagamento de bônus ou dividendos, isso levaria imediatamente a uma venda desenfreada de ações e uma quebra do patrimônio da empresa.”

Com relação ao sistema de segurança na Usina de Angra dos Reis no caso de um acidente similar ao de Fukushima, Moacyr Duarte explica que existe um plano confiável endossado e considerado suficiente pela Agência Internacional e que cobre um raio de 5 quilômetros, conforme o tipo de reator e ambiente daquela região. 

“Quem garante a eficácia é a Agência Internacional de Energia Atômica. Então, para esse raio existe a determinação de abrigos, rotas de fuga, mecanismos de transferência dos ônibus para poder fazer a retirada da população, etc. O plano de emergência é treinado anualmente e para esse primeiro raio existe uma concentração de recursos. Daí para a frente, dependeria de um ajuste, e da extensão do esquema, mas inicialmente a gente não teria muito um problema de atuação.”

O engenheiro Moacyr Duarte explica que o Brasil tem um grau de operação segura, com operadores certificados atuando no Complexo Nuclear de Angra dos Reis, e isso serve de modelo para que profissionais estrangeiros efetuem treinamentos aqui no país. 

“O Brasil é um país aberto a esse tipo de inspeção, e tem a tradição de manter a transparência e a eficiência técnica da equipe da operação e da manutenção. Inclusive, parte dos treinadores que fazem a operação, por exemplo, no simulador do painel do reator de Angra 2 vem do exterior treinar aqui. Nós temos um simulador e um programa de treinamento ativo pra isso.”

Caso haja uma eventual paralisação da Usina de Angra dos Reis, como aconteceu com a cidade de Fukushima, no Japão, o especialista garante que a Região Sudeste não ficaria às escuras. 

“Não, o Brasil tem um sistema de anel interligado, ou seja, várias usinas injetam energia para diversos pontos do país. E, por ter várias modalidades no cardápio de fontes do sistema elétrico, mesmo quando a usina para não existe esse perigo.”

Com relação a que tipos de defesa seriam necessários para a prevenção de desastres naturais como em Fukushima, o Dr. Moacyr Duarte explica que essa é a questão mundial hoje, e que as nações se baseiam no Protocolo de Hyogo, assinado em 2005, no Japão por 168 países para a geração de soluções coordenadas, em nível global, para a redução de riscos de desastres. 

“Nós hoje seguimos o protocolo de Hyogo, que estabeleceu diretrizes comuns às nações para o enfrentamento de desastres naturais. Como cada localidade é suscetível a um tipo de desastre, o que vem sendo uma tendência é analisar os riscos de cada fenômeno, onde existe território vulnerável, e onde há população dentro do território vulnerável, e aí fazer uma escala de priorização de investimentos para poder chegar a algum ponto de prevenção.”

A Autoridade de Regulação Nuclear do Japão informa que em Fukushima existem ainda inúmeros riscos de acidentes e problemas na central nuclear, como a descoberta recente de um novo vazamento de água radioativa para o mar. O órgão regulador pediu à operadora central, a Tokyo Electric Power, que amplie os esforços para melhorar a segurança local.

Além disso, nos últimos meses também tem crescido em Fukushima o número de acidentes envolvendo funcionários da central nuclear, à medida que vão ocorrendo as operações de desmonte da usina, que segundo as autoridades locais ainda deve demorar de 30 a 40 anos para ser concluída. O último acidente registrado aconteceu em janeiro deste ano, quando um técnico morreu ao cair em um tanque de armazenamento de água.


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